A Política na Polis


ORDEM E PROGRESSO GRADATIVO

A difícil arte de civilizar a humanidade

Por Hiran de Melo

Há palavras que atravessam os séculos carregando promessas. Ordem é uma delas. Progresso, outra.

Quando pronunciadas juntas, parecem formar uma equação quase perfeita: primeiro a ordem, depois o progresso. Como se bastasse organizar o caos, estabelecer regras comuns e, então, caminhar em direção a um futuro melhor.

Mas será mesmo assim?

Ou será que essa confiança revela mais sobre aquilo que gostaríamos que a História fosse do que sobre aquilo que ela realmente tem sido?

A História dos povos nos coloca diante de uma constatação incômoda: o progresso não é uma estrada de mão única.

Aquilo que uma geração conquista pode ser perdido por outra.

O conhecimento pode avançar enquanto a ética recua. A tecnologia pode se sofisticar enquanto a política retorna à violência. Uma sociedade pode tornar-se extraordinariamente eficiente sem se tornar, necessariamente, mais justa.

E talvez seja justamente nesse intervalo — entre aquilo que conseguimos produzir e aquilo que conseguimos ser — que esteja o verdadeiro problema civilizatório.

A pergunta, então, talvez não seja:

“Quanto avançamos?”

Mas:

“Em que nos tornamos enquanto avançávamos?”

A ordem não é o silêncio dos vencidos

Existe uma compreensão confortável da ordem segundo a qual uma sociedade ordenada seria aquela em que todos obedecem, discordam pouco e permanecem em seus lugares.

Mas uma sociedade silenciosa pode estar profundamente desorganizada.

Pode possuir leis e conviver com a injustiça.

Pode possuir instituições impecáveis no papel e tratar seres humanos como inferiores, descartáveis ou inimigos.

Pode existir paz nas ruas enquanto a violência habita as estruturas.

Então, que ordem estamos defendendo quando falamos em ordem?

A ordem de quem?

Para proteger quem?

E contra quem?

Talvez a primeira provocação esteja justamente aí: toda ordem precisa revelar o que pretende preservar.

Para Thomas Hobbes, uma das justificativas fundamentais da autoridade política encontra-se na proteção dos indivíduos contra a violência e a morte violenta. O pacto social nasce, assim, da necessidade de impedir que a convivência humana se dissolva numa guerra permanente.

Mas há uma pergunta que Hobbes nos deixa à porta:

o que acontece quando aquele que deveria proteger passa a ameaçar?

A ordem continua sendo ordem?

Ou passa a ser apenas medo organizado?

Talvez a diferença entre civilização e submissão esteja justamente nessa fronteira.

Precisamos concordar sobre alguma coisa

Nenhuma sociedade permanece unida apenas porque possui leis.

Leis podem determinar comportamentos. Dificilmente conseguem, sozinhas, produzir pertencimento.

Para que exista uma coletividade, parece necessário algum território simbólico comum: uma história, alguns valores, uma memória, uma ideia de futuro.

Algo que permita ao indivíduo dizer:

“Eu discordo de você, mas ainda reconheço você como parte do mesmo mundo.”

Hobbes percebe que a autoridade necessita de algum tipo de pacto e de referências compartilhadas sobre aquilo que constitui uma coletividade.

Mas talvez devêssemos ir um pouco além.

O que acontece quando já não conseguimos concordar sequer sobre aquilo que deve ser preservado?

Quando a verdade do outro passa a parecer uma ameaça?

Quando a divergência deixa de ser diferença e passa a ser tratada como traição?

Quando o adversário precisa ser destruído para que o nosso próprio grupo se sinta seguro?

Talvez uma sociedade comece a perder sua condição civilizatória não quando surgem divergências, mas quando desaparece a capacidade de conviver com elas.

Civilizar-se talvez seja isto: aprender a permanecer juntos sem precisar pensar juntos.

O progresso não acontece porque desejamos

Existe outro equívoco sedutor: imaginar que o progresso seja uma espécie de lei natural da História.

Como se cada geração recebesse o que a anterior conquistou, acrescentasse alguma coisa e entregasse automaticamente um mundo melhor à seguinte.

A tecnologia parece confirmar essa narrativa.

Uma descoberta abre caminho para outra. Um conhecimento se soma a outro. Uma técnica aperfeiçoa a anterior.

Mas será que podemos dizer o mesmo da ética?

Da política?

Da liberdade?

Da tolerância?

Aqui começa o desconforto.

O conhecimento pode ser acumulado.

A tecnologia pode ser transmitida.

A ciência pode avançar.

Mas será que a sabedoria também se acumula?

Se acumulasse, por que sociedades que conhecem os horrores das guerras ainda retornam à violência?

Se a humanidade realmente aprendesse com a História, por que determinados erros reaparecem com novos nomes?

Talvez tenhamos aprendido a construir máquinas capazes de fazer coisas extraordinárias sem termos aprendido, na mesma proporção, a decidir o que vale a pena fazer.

E então surge uma pergunta ainda mais incômoda:

De que adianta aumentar o poder humano se não aumentarmos, simultaneamente, a responsabilidade humana?

Civilização é uma conquista reversível

A Primeira Guerra Mundial não destruiu apenas milhões de vidas.

Destruiu certezas.

A Europa que existia antes de 1914 possuía instituições, cultura, ciência, riqueza e uma considerável confiança em sua própria trajetória histórica.

Depois vieram a guerra, a radicalização política, os nacionalismos, o fascismo, o nazismo, o comunismo, a Segunda Guerra Mundial.

A História demonstrou que uma civilização pode regredir.

E talvez essa seja uma das verdades que menos gostamos de ouvir:

civilização não é um lugar onde chegamos.

É uma condição que podemos perder.

O progresso gradativo depende, portanto, de alguma forma de ordem compartilhada. Não de unanimidade. Não de uniformidade. Mas de referências mínimas sobre aquilo que não deveria ser destruído.

A vida.

A dignidade.

A liberdade.

A justiça.

A possibilidade de discordar.

O direito de participar.

Mas quem decide o que não pode ser destruído?

E se o que um grupo considera liberdade outro considerar ameaça?

E se aquilo que uns chamam de justiça for percebido por outros como privilégio?

E se já não houver uma linguagem comum para discutir essas diferenças?

Talvez seja nesse ponto que a civilização seja realmente testada.

Não quando todos concordam.

Mas quando ninguém concorda.

A violência interrompe a aprendizagem

Toda civilização parece ser uma tentativa de substituir a violência imediata por instituições.

Em vez da vingança, o julgamento.

Em vez da força, o direito.

Em vez da guerra permanente, o pacto.

Em vez do “eu posso porque sou mais forte”, o princípio de que existem regras que também limitam aquele que possui poder.

É um movimento lento.

Frágil.

E talvez justamente por isso seja civilizatório.

A violência oferece uma promessa tentadora: resolver rapidamente aquilo que a negociação demora a resolver.

Mas a violência raramente termina onde começa.

Ela produz memória.

Ressentimento.

Medo.

Desejo de vingança.

E, sobretudo, destrói confiança.

Por isso, talvez devêssemos olhar para nossas escolhas presentes com uma pergunta que normalmente evitamos:

Que tipo de futuro nossas decisões estão tornando possível?

Porque nenhuma decisão coletiva termina no momento em que é tomada.

Algumas ampliam as possibilidades das gerações futuras.

Outras as aprisionam.

Há escolhas que deixam portas abertas.

Há outras que queimam as pontes pelas quais talvez precisássemos retornar.

Que herança estamos preparando sem perceber?

O progresso começa onde termina a certeza

Talvez seja necessário abandonar tanto o pessimismo absoluto quanto o otimismo ingênuo.

Não precisamos acreditar que a humanidade esteja condenada ao fracasso.

Mas também não precisamos acreditar que esteja destinada ao aperfeiçoamento.

Entre essas duas ilusões existe uma palavra menos confortável: responsabilidade.

Se o progresso não é inevitável, precisamos construí-lo.

Se a civilização pode retroceder, precisamos protegê-la.

Se a ordem pode transformar-se em autoritarismo, precisamos perguntar onde termina a proteção e começa a dominação.

Se a liberdade pode dissolver-se em violência, precisamos perguntar se toda liberdade produz civilização.

Se a igualdade pode ser destruída pelo privilégio, precisamos perguntar se uma sociedade pode permanecer estável quando parte dela sente que a ordem existe apenas para proteger a outra parte.

A consciência de que o progresso é reversível não deveria produzir impotência.

Deveria produzir vigilância.

Mas vigilância sobre quem?

Sobre o Estado?

Sobre as instituições?

Sobre os governantes?

Sobre os outros?

Ou talvez, antes de tudo, sobre nós mesmos?

Ordem sem justiça é apenas contenção

Uma sociedade pode possuir ordem e não possuir justiça.

Pode ser estável e profundamente opressiva.

Pode exigir obediência enquanto distribui proteção de maneira desigual.

Pode preservar a paz exterior sacrificando a dignidade de determinados grupos.

Então, quando pronunciamos a palavra “ordem”, talvez devêssemos perguntar:

ordem para quê?

E quando pronunciamos “progresso”:

progresso para quem?

Essas duas perguntas talvez sejam suficientes para impedir que transformemos palavras nobres em álibis para realidades menos nobres.

Porque ordem e progresso, separados da justiça, podem produzir uma sociedade perfeitamente organizada para produzir desigualdade.

A verdadeira ordem civilizatória não elimina o conflito.

Ela cria condições para que o conflito não precise terminar em destruição.

Uma sociedade viva não é uma sociedade sem divergências.

É uma sociedade que aprendeu a civilizar suas divergências.

Talvez uma das grandes conquistas da civilização seja transformar o inimigo em adversário, o adversário em interlocutor e o conflito em possibilidade de negociação.

Mas será que estamos aprendendo novamente a fazer o caminho inverso?

O verdadeiro progresso talvez seja aquilo que conseguimos preservar

A modernidade acostumou-se a medir o progresso pelo que conseguimos acrescentar.

Mais tecnologia.

Mais velocidade.

Mais produção.

Mais informação.

Mais capacidade de intervenção.

Mas uma civilização madura talvez devesse fazer outra pergunta:

O que conseguimos preservar enquanto avançávamos?

Preservamos a dignidade humana?

Preservamos o direito de pensar diferente?

Preservamos a confiança nas instituições?

Preservamos a capacidade de dialogar?

Preservamos a memória dos nossos erros?

Preservamos a possibilidade de reconhecer que estávamos errados?

Porque existe uma forma particularmente perigosa de retrocesso:

aquela que acontece enquanto acreditamos estar avançando.

Podemos comunicar-nos instantaneamente e dialogar cada vez menos.

Podemos acumular informação e perder sabedoria.

Podemos possuir instrumentos extraordinários de poder e não possuir maturidade suficiente para utilizá-los.

Podemos conquistar o domínio sobre a natureza e continuar sem domínio sobre nós mesmos.

Então talvez a pergunta não seja se temos mais poder do que nossos antepassados.

É:

somos mais capazes de governar o poder que temos?

O progresso gradativo é uma disciplina da esperança

Talvez o progresso gradativo só recupere sua dignidade quando deixamos de entendê-lo como promessa e passamos a compreendê-lo como responsabilidade.

Progredir não significa acreditar que tudo ficará melhor.

Significa reconhecer que cada avanço precisa ser construído, protegido e transmitido.

Não existe garantia.

Existe trabalho.

Não existe destino histórico assegurado.

Existe escolha.

Não existe uma escada pela qual a humanidade sobe inevitavelmente.

Existem degraus que podem ser construídos, destruídos ou reconstruídos.

Por isso, o verdadeiro progresso talvez não seja uma marcha triunfal.

Talvez seja uma disciplina.

A disciplina de fazer hoje aquilo que permita ao outro continuar amanhã.

A disciplina de criar instituições que sobrevivam aos homens que as construíram.

A disciplina de aceitar que uma sociedade não precisa vencer todas as suas discussões para continuar existindo.

A disciplina de compreender que o adversário de hoje pode ser o parceiro de amanhã.

E talvez preservar a possibilidade do diálogo seja, em determinadas circunstâncias, uma conquista maior do que vencer o debate.

Entre a ordem e o progresso existe o homem

No fim, talvez a expressão “Ordem e Progresso” esconda uma pergunta que preferimos não fazer:

que tipo de ser humano estamos formando para sustentar a ordem e produzir o progresso?

Porque nenhuma instituição é melhor do que as pessoas que a habitam.

Nenhum pacto permanece vivo quando aqueles que o celebraram deixam de acreditar em qualquer coisa comum.

Nenhuma constituição é suficientemente forte para impedir, sozinha, que uma sociedade escolha a intolerância.

Nenhuma tecnologia é capaz de decidir, por nós, o que merece ser preservado.

A civilização não está definitivamente construída.

Ela precisa ser reconstruída todos os dias.

Talvez seja essa a grande provocação escondida na crítica ao mito do progresso:

não estamos viajando para um destino previamente garantido.

Estamos tentando permanecer humanos dentro de uma História que não nos promete segurança.

E talvez seja justamente por isso que a ordem verdadeira não possa ser a ordem do medo.

Nem o progresso possa ser a promessa de um futuro inevitavelmente melhor.

A ordem precisa ser suficientemente firme para conter a violência — mas suficientemente justa para não transformar a paz em submissão.

O progresso precisa ser suficientemente humilde para reconhecer que pode retroceder — e suficientemente esperançoso para continuar tentando.

Mas quem vigiará essa ordem?

Quem definirá os limites desse progresso?

Quem impedirá que a autoridade, criada para proteger, descubra que pode também dominar?

Quem impedirá que a maioria transforme sua força em direito?

Quem lembrará aos vencedores que uma sociedade não pertence apenas a quem venceu?

E, sobretudo:

quem vigiará o homem que vigia os outros?

Talvez seja justamente aí que comece a verdadeira civilização.

Não quando encontramos respostas definitivas.

Mas quando aprendemos a fazer perguntas suficientemente profundas para impedir que nossas certezas se transformem em violência.

O futuro não nos pertence.

Mas somos responsáveis pelas condições que deixaremos para aqueles que virão depois de nós.

A humanidade não recebeu o progresso como herança definitiva.

Recebeu apenas a possibilidade de construí-lo.

E talvez cada geração tenha diante de si a mesma pergunta:

recebemos um mundo para administrar ou uma civilização para merecer?

A resposta não está escrita.

Será aquilo que fizermos dela.

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