Religião e Existencialismo
DO PARADIGMA GREGO AO PARADIGMA DE JESUS: ONDE MORA O VALOR DE UMA
VIDA
Entre o dom recebido e a responsabilidade de existir
Por Hiran de Melo
Existe
uma antiga pergunta que atravessa os séculos: a quem entregar a flauta?
A
resposta atribuída ao pensamento grego parece evidente: ao melhor flautista.
Afinal, para que confiar um instrumento a quem não sabe tocá-lo? Não seria mais
sensato entregá-lo àquele que possui o talento necessário para produzir a
melhor música?
A
lógica é sedutora. Mas há uma pergunta escondida atrás dela: quem decidiu que o melhor flautista merecia a flauta
antes mesmo de começar a tocar?
A
questão vai além da escolha de um músico. Leva-nos a pensar sobre o valor de
uma vida, as desigualdades humanas e os critérios que utilizamos para decidir
quem merece oportunidades, reconhecimento e lugar no mundo.
O mundo dos escolhidos
Na
tradição grega, particularmente em suas concepções aristocráticas, a excelência
ocupava um lugar central. A virtude, a capacidade e a realização de
determinadas qualidades distinguiam os homens. Em algumas dessas concepções,
nem todos estavam igualmente preparados para governar, decidir ou ocupar
posições de destaque.
Seria
injusto, entretanto, reduzir toda a filosofia grega a essa perspectiva. Os
próprios gregos nos legaram reflexões profundas sobre a virtude, a educação e a
formação do caráter. Ainda assim, permaneceu em parte dessa herança uma
tendência que nos acompanha até hoje: transformar diferenças de capacidade em
diferenças de valor humano.
A
natureza distribui seus dons sem consultar nossas preferências. A um concede
facilidade de expressão; a outro, dificuldade para encontrar as palavras. Um
aprende depressa; outro precisa repetir muitas vezes. Há quem encontre portas
abertas desde cedo, enquanto outros gastam boa parte da vida tentando abrir a
primeira.
O
problema não está em reconhecer essas diferenças, mas em convertê-las numa
sentença sobre o valor de cada pessoa. Quando confundimos talento com
merecimento, corremos o risco de acreditar que o sucesso comprova virtudes e
que o fracasso revela incapacidade.
A
flauta deixa, então, de ser apenas um instrumento. Passa a representar as
oportunidades, os privilégios e os espaços que a sociedade distribui, muitas
vezes, entre aqueles que já demonstraram possuir condições para ocupá-los.
E
quem nunca teve a oportunidade de aprender a tocar?
Três homens, três destinos
É
nesse ponto que a parábola dos talentos, narrada no Evangelho de Mateus, nos
convida a deslocar o olhar.
Um
senhor parte em viagem e confia seus bens a três servos. A um entrega cinco
talentos; a outro, dois; ao terceiro, um. A distribuição é desigual, e o texto
informa que cada um recebeu conforme sua capacidade.
Até
aqui, nada parece contrariar a lógica da diferença. Os dois primeiros negociam
e multiplicam o que receberam. O terceiro, movido pelo medo, enterra o talento
e o devolve intacto.
Quando
o senhor retorna, os resultados são distintos. O primeiro apresenta dez
talentos; o segundo, quatro. Apesar disso, ambos recebem exatamente o mesmo
reconhecimento:
“Muito
bem, servo bom e fiel!”
O
segundo não é censurado por ter produzido menos que o primeiro. Não lhe cobram
que transforme dois talentos em dez. Cada um responde pelo que recebeu e pelo
que fez com aquilo que estava ao seu alcance.
O
reconhecimento não depende da igualdade dos resultados, mas da fidelidade
demonstrada no uso dos recursos confiados.
O
terceiro, por sua vez, não é repreendido por ter recebido apenas um talento. É
censurado por ter permitido que o medo determinasse sua conduta. Não tentou,
não arriscou, não procurou alternativa. Enterrou o que recebeu e fez da
conservação uma justificativa para a inércia.
A
advertência parece clara: não é a pequena quantidade que condena o servo, mas
sua renúncia a agir.
Isso
não significa, porém, que todo aquele que não prospera fracassou moralmente. Há
quem se esforce e não alcance os resultados esperados. Existem obstáculos que
não se vencem apenas com coragem, assim como há desigualdades que nenhuma
disposição individual consegue superar sozinha.
A
vida nos ensina que nem todo terreno é fértil e que nem toda semente encontra
chuva. Ainda assim, a parábola nos convida a não confundir o pouco que
recebemos com a impossibilidade de fazer alguma coisa com ele.
A mudança do critério
Talvez
a diferença fundamental entre os dois paradigmas esteja na pergunta que fazemos
diante de uma vida.
O
olhar concentrado na excelência pergunta: quem é o melhor? Quem demonstra maior
capacidade? Quem alcançou o resultado mais expressivo?
A
parábola introduz outra questão: o que cada um fez com aquilo que lhe foi
confiado?
A
primeira pergunta pode ser necessária quando precisamos escolher alguém para
executar uma tarefa. Nem todos possuem a mesma habilidade para todas as
funções. Reconhecer a competência não é injusto.
O
problema começa quando a superioridade numa atividade se transforma em
superioridade humana. Uma coisa é reconhecer que alguém toca melhor a flauta;
outra é concluir que sua vida vale mais do que a daquele que ainda está
aprendendo.
A
competência pode justificar uma escolha profissional. Não pode, por si só,
estabelecer uma hierarquia entre seres humanos.
É
aqui que os ensinamentos de Jesus nos permitem ir além da comparação entre
resultados. A pessoa não precisa demonstrar sua utilidade para merecer
dignidade. E, quando aproximamos a parábola de outros ensinamentos do
Evangelho, sobretudo daqueles que colocam os pequenos, os esquecidos e os
vulneráveis no centro da vida moral, encontramos uma mudança ainda mais
profunda.
O
ser humano não é apenas alguém que precisa produzir. É também alguém diante de
quem temos responsabilidades.
Não
se trata de abolir a excelência, mas de retirar dela o direito de decidir quem
merece respeito, oportunidades e pertencimento.
A armadilha de transformar mérito em
destino
Essa
reflexão ganha força quando observamos a sociedade em que vivemos.
Costumamos
admirar os vencedores como se suas conquistas fossem resultado exclusivo de
suas virtudes. O sucesso aparece como prova de mérito; o fracasso, como
evidência de incapacidade. A riqueza parece confirmar que alguém soube
aproveitar a vida, enquanto a pobreza é tratada, muitas vezes, como sinal de
insuficiência pessoal.
Essa
narrativa é confortável para quem venceu. Permite acreditar que tudo foi
conquistado exclusivamente pelo próprio esforço.
Mas
quem escolheu a família em que nascemos? Quem decidiu as condições materiais da
nossa infância, a qualidade da escola que frequentamos e as oportunidades que
encontramos pelo caminho?
Ninguém
escolheu o ponto de partida.
Isso
não elimina nossa responsabilidade pelas escolhas que fazemos, tampouco torna o
esforço irrelevante. Significa apenas que o mérito individual não explica,
sozinho, a totalidade de uma trajetória.
Há
quem receba cinco talentos e encontre condições favoráveis para multiplicá-los.
Há quem receba dois e enfrente obstáculos que tornam cada conquista mais
difícil. E há quem receba um, não por falta de capacidade, mas porque a vida
lhe ofereceu menos recursos, oportunidades ou amparo.
Se
desejamos compreender uma existência, precisamos olhar também para aquilo que
não aparece no resultado final.
Alguém
pode ter alcançado pouco porque precisou dedicar suas forças à sobrevivência.
Outro pode ter caminhado lentamente porque passou anos cuidando de quem não
conseguia caminhar sozinho. Há realizações que não aparecem em currículos ou
patrimônios, mas revelam a dignidade com que alguém atravessou circunstâncias
que jamais escolheu.
Quem
somos nós para declarar que essas vidas valeram menos?
Quando
a meritocracia se transforma em explicação absoluta do sucesso e do fracasso,
privilégios podem ser confundidos com virtudes, enquanto dificuldades se
convertem em culpa. A parábola não precisa ser utilizada para legitimar essa
lógica. Sua leitura cuidadosa nos convida a distinguir a quantidade recebida da
responsabilidade assumida.
E
a reflexão sobre Jesus acrescenta outra pergunta: pode uma sociedade que
oferece oportunidades tão desiguais julgar seus integrantes apenas pelos
resultados que apresentam?
O talento que não cabe numa bolsa
Há
um limite na leitura exclusivamente econômica da parábola: imaginar que os
talentos representam apenas dinheiro, produtividade ou capacidade de acumular
riquezas.
Na
época, o talento era uma unidade de peso e valor monetário. Podemos,
entretanto, ampliar a reflexão para outros recursos que recebemos ou
desenvolvemos ao longo da existência: conhecimento, sensibilidade, imaginação, capacidade de amar,
disposição para servir e coragem para rever convicções.
Nem
todos possuem os mesmos dons, nem precisam produzir a mesma música.
Há
quem tenha facilidade para ensinar; há quem saiba escutar. Alguns lideram
grandes grupos; outros acolhem uma única pessoa no momento em que ela mais
precisa. Há quem transforme o mundo por meio de uma descoberta e quem
transforme a vida de alguém com uma palavra que jamais será registrada em livro
algum.
O
problema começa quando reconhecemos apenas os talentos que produzem resultados
visíveis e ignoramos aqueles cuja importância não pode ser traduzida em
números.
Uma
sociedade que mede tudo pela produtividade acaba considerando inútil aquilo que
não consegue contabilizar. O cuidado com os idosos, a presença junto aos
enfermos e a solidariedade oferecida sem publicidade raramente aparecem nos
balanços que celebram os vencedores.
Entretanto,
essas experiências talvez nos aproximem do que há de mais humano em nós.
Jesus
não se limitou a ensinar que devemos multiplicar os recursos recebidos. Em
outros momentos de sua trajetória, voltou-se para aqueles que a sociedade
deixava à margem. O samaritano tornou-se exemplo de cuidado; a criança,
referência para uma mudança de perspectiva; os famintos, estrangeiros, enfermos
e encarcerados passaram a ocupar lugar decisivo no julgamento moral apresentado
em Mateus 25.
A
vida humana, portanto, não se esgota no que cada pessoa consegue produzir para
si. Revela-se também naquilo que somos capazes de fazer uns pelos outros.
O
talento pode ser uma riqueza. Mas, quando não se converte em responsabilidade,
corre o risco de se tornar apenas uma forma sofisticada de isolamento.
O valor de quem recebeu menos
Voltemos
à criança que nunca era escolhida para tocar a flauta.
Talvez
ela não tenha o melhor ouvido, o maior fôlego ou a coordenação mais precisa.
Precisa de mais tempo, de um professor paciente e de uma oportunidade que não
lhe seja retirada antes da primeira tentativa.
O
paradigma da excelência pergunta se ela é a melhor escolha para a apresentação
de hoje. O paradigma da dignidade pergunta também o que estamos fazendo para
que ela possa aprender amanhã.
As
perguntas não são incompatíveis. Uma apresentação musical exige competências
específicas, mas a formação de uma sociedade justa não pode se resumir à
seleção daqueles que já demonstraram possuir as melhores condições.
É
preciso haver espaço para o exercício, o erro, o aprendizado e a descoberta de
capacidades ainda sem oportunidade de florescer.
A
verdadeira igualdade não consiste em fingir que todos são iguais em tudo.
Consiste em reconhecer que diferenças de capacidade e de circunstância não
autorizam a exclusão, a humilhação ou a negação de direitos.
Se
alguém recebeu menos, sua vida não vale menos. Se alguém recebeu mais, não lhe
cabe, por isso, uma posição superior na escala da dignidade humana.
E
talvez a responsabilidade de quem recebeu mais seja também ajudar a criar
condições para que outros desenvolvam aquilo que ainda não tiveram oportunidade
de descobrir em si mesmos.
A
riqueza, nesse sentido, não se mede apenas pelo que conseguimos multiplicar,
mas também pelas possibilidades que nossa presença abre na vida alheia.
Onde mora, afinal, o valor de uma vida?
Não
mora exclusivamente no berço, embora ninguém comece do mesmo lugar. Não mora
apenas no talento, embora nossas capacidades façam diferença. Tampouco se
resume à riqueza acumulada, ao prestígio conquistado ou à quantidade de pessoas
que reconhecem nosso nome.
O
valor de uma vida também se revela nas escolhas que fazemos, na maneira como
enfrentamos as circunstâncias que não escolhemos e na responsabilidade que
assumimos diante de nós mesmos e dos outros.
Há,
porém, algo que precisa permanecer acima de qualquer avaliação de desempenho: a dignidade humana não é um prêmio
concedido aos que produzem mais ou alcançam maior sucesso. Não
depende de uma prestação de contas para ser reconhecida.
É
importante distinguir essas dimensões. A parábola avalia a conduta dos servos
diante dos bens que lhes foram confiados. Não precisamos transformar essa
avaliação em medida universal do valor de cada pessoa, muito menos condenar
quem, por doença, deficiência, sofrimento ou circunstâncias adversas, não
consegue produzir o que se esperava.
A
responsabilidade faz parte da liberdade. A dignidade, porém, não pode ficar
condicionada ao êxito.
Talvez
seja essa uma das contribuições mais fecundas do encontro entre o pensamento
grego e os ensinamentos de Jesus: reconhecer a excelência sem fazer dela um altar, valorizar o esforço
sem ignorar as condições de partida e admirar as conquistas sem transformar os
vencedores em seres humanos superiores.
A
vida não nos pede que sejamos iguais em capacidade ou que produzamos os mesmos
resultados. Pede-nos que não façamos das nossas diferenças uma autorização para
desprezar uns aos outros.
Os
gregos nos ensinaram a admirar a excelência. Jesus nos convida a examinar o
lugar que concedemos ao ser humano para além dela.
Entre
a flauta e a terra, entre o dom recebido e a responsabilidade assumida, cada um
precisa descobrir o que pode fazer com a própria existência. Mas essa
possibilidade não deveria ser privilégio de quem já nasceu sabendo tocar.
Talvez
o verdadeiro sinal de uma sociedade justa não seja apenas a presença dos
melhores músicos no palco, mas a disposição de não deixar ninguém sem a
oportunidade de descobrir a música que traz consigo.
Afinal,
o valor de uma vida não
está em ter recebido mais, nem pode ser reduzido ao que ela conseguiu produzir.
Está também na dignidade que lhe reconhecemos, nas possibilidades que lhe
oferecemos e na humanidade que somos capazes de construir juntos.

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