A Política na Polis
A Régua que Muda de Tamanho
Quando a convicção vira conveniência, o princípio deixa de medir
a nós mesmos e passa a medir só os outros.
Por Hiran de Melo
Todo
obreiro conhece a régua de vinte e quatro polegadas.
Ela
mede o trabalho. Divide o dia. Lembra que o tempo é curto e que a obra pede
disciplina. Mas uma régua só serve se tiver o mesmo tamanho para todos.
Se
encurta quando mede a mim e se alonga quando mede o outro, deixa de ser
instrumento. Vira disfarce.
Esse
disfarce é antigo e aparece em qualquer lado, em qualquer grupo, em qualquer um
de nós. Tem nomes bonitos: estratégia, bom senso, defesa dos nossos interesses.
Mas quando a medida muda sempre a favor de quem mede, merece outro nome.
Conveniência.
Vamos
examiná-la como se examina uma pedra bruta: sem raiva, mas sem fingir que ela
já é lisa.
A pátria que só vale para alguns
Imagine
alguém que defende, com paixão, que nenhum país deve ser dobrado pela vontade
de outro. Que a soberania de um povo é sagrada.
Agora
imagine essa mesma pessoa diante de uma potência que pressiona uma nação mais
fraca. Se a nação pressionada é "inimiga", ela se indigna. Se é
"amiga", se cala. Ou até aplaude.
Talvez
aqui esteja o primeiro sinal.
Soberania
que só vale para os países de que gostamos não é princípio. É preferência.
Isso
não quer dizer que nenhum governo possa ser criticado, nem que a soberania
sirva de escudo para abusos. É possível condenar um governo e, ao mesmo tempo,
defender o direito do seu povo de decidir o próprio destino. O erro começa
quando confundimos rejeitar um governante com autorizar que outro decida por
uma nação inteira.
O inimigo que muda de nome
O
segundo sinal é a etiqueta.
Há
palavras que, de tanto uso, perdem o sentido e viram rótulo. Cabem nelas
pessoas muito diferentes, que passam a ser tratadas como uma só. A diversidade
some sob uma única acusação.
E
isso tem uma função. Quando o outro deixa de ser alguém com ideias e passa a
ser uma ameaça absoluta, ninguém precisa mais ouvir, entender ou reconhecer
qualquer mérito.
O
rótulo substitui o pensamento.
Mas
a régua encolhe quando o dinheiro entra na sala. O mesmo regime que se condena
com tanta dureza em casa vira "parceiro respeitável" quando traz
mercado, investimento e negócio. E está certo comerciar: nenhum país
responsável deve transformar diferença de ideias em muro.
A
contradição não está em negociar. Está em usar rigor total com o adversário de
dentro de casa e flexibilidade total com quem paga bem do lado de fora.
Então
vêm duas perguntas.
Se
uma ideia é uma ameaça inaceitável à liberdade, por que ela some do discurso
quando há lucro?
E
se é possível reconhecer que um povo não se resume ao rótulo do seu governo,
por que negar essa mesma complexidade ao vizinho que pensa diferente?
A urna que só presta quando ganhamos
O
terceiro sinal aparece nas eleições.
Quando
o resultado é ruim, vêm as suspeitas e os ataques à confiança no processo.
Quando é bom, a dúvida desaparece e ninguém mais fala em fraude.
É
preciso separar duas coisas. Questionar com provas, pelos caminhos legais, faz
parte da democracia. Duvidar de tudo sem evidência, só porque o resultado
desagradou, corrói as colunas do templo.
Urna
não fica confiável porque elegeu o nosso candidato. Nem fica fraudada porque
elegeu o adversário. Ela vale pelos controles, pela fiscalização e pelas
provas.
Aceitar
a democracia é aceitar que o povo pode escolher quem não escolheríamos. Quem só
reconhece a vontade do povo quando ela concorda com ele não defende a soberania
popular. Defende uma versão podada dela.
A liberdade para os nossos, a suspeita para os outros
O
quarto sinal é a liberdade.
Exalta-se
a liberdade de expressão, mas chama-se de perseguição qualquer crítica aos
nossos. Defende-se a liberdade econômica, mas aceitam-se pressões que ferem a
autonomia do país. Denuncia-se o autoritarismo do adversário e relativiza-se o
do aliado.
Nada
disso significa que todos os membros de um grupo pensem igual. Nem que cada
pessoa carregue as contradições dos seus dirigentes. Falamos de um padrão:
princípios que deixam de ser limite para o próprio grupo e viram exigência só
para os outros.
A liberdade que só
protege os nossos não é liberdade.
A justiça que só cobra dos adversários não é justiça.
O
patriotismo que aceita perder autonomia por afinidade de ideias contradiz o que
diz defender.
E
o perigo cresce quando o grupo deixa de enxergar isso. Toda crítica vira
perseguição. Toda prova contrária vira conspiração. Toda mudança de posição
vira estratégia genial.
Aí
a ideologia já não serve para entender a realidade. Serve para evitar o
desconforto de olhar para ela.
Mudar não é o problema
Todos
nós nos contradizemos. Mudamos de opinião, revemos conceitos, descobrimos que
certas certezas eram de barro. Isso não é defeito. Quem muda porque aprendeu
cresce.
A
diferença está na maneira.
Quem
muda por ter compreendido o erro aprende. Quem muda o critério conforme a
vantagem e continua jurando que nunca mudou perde algo mais fundo.
Não
é a mudança que compromete a integridade. É a recusa em admitir o que a
motivou.
O espelho do Templo
Quem
entra na Loja pela primeira vez passa antes pela Câmara de Reflexões. Ali não
há plateia. Só um espelho invisível e perguntas que ninguém pode responder por
nós.
Talvez
a política, e a vida, precisem dessa câmara.
Porque
o mecanismo que descrevemos não é de um partido nem de um lado. Mora em quem
justifica nos aliados o que condena nos adversários. Em quem só aceita como
verdade o que confirma o que já pensava. Em quem confunde lealdade a um líder
com fidelidade à pátria.
Nesses
momentos deixamos de examinar o poder. E começamos a servi-lo.
Uma
convicção verdadeira não precisa ser imutável. Precisa saber explicar por que
mudou.
E
aqui, talvez, firmeza e abertura deixem de ser inimigas. São o esquadro e o
compasso do mesmo obreiro: um para ser reto, o outro para ser largo.
A régua, de novo
Voltemos
à régua de vinte e quatro polegadas.
Se a soberania é valor,
vale também para quem pensa diferente.
Se a democracia é princípio, vale também quando perdemos.
Se a liberdade é direito, não depende de quem a exerce.
Se uma ideia é condenada, a condenação precisa resistir ao encontro com o
interesse.
A
pergunta que fica é simples. E incômoda.
Defendemos
aquilo em que acreditamos? Ou acreditamos naquilo que nos convém defender?
O
maior perigo não é mudar de opinião. É deixar de perceber quando mudamos de
princípio sem admitir que o fizemos. E talvez a forma mais sutil de submissão
não seja obedecer a um líder, mas entregar a ele a nossa própria régua, até que
já não saibamos distinguir o que realmente mede a verdade do que nos mandaram
repetir.
Isso
não acontece só lá fora, com os outros. Acontece aqui, hoje, dentro de cada um
que lê.
A
régua que mede os outros precisa caber, inteira, em nossas próprias mãos.

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