A Política na Polis


A MEDIDA QUE CONVÉM

Quando a ideologia vira conveniência, o princípio deixa de medir a nós mesmos e passa a medir só os outros.

Por Hiran de Melo

Todo obreiro conhece a régua de vinte e quatro polegadas, símbolo da disciplina e do uso consciente do tempo. Ela nos ensina que o dia tem limites e que a qualidade da obra depende da maneira como distribuímos nossas horas.

Mas há uma medida mais difícil de aprender: aquela que usamos para julgar a nós mesmos e aos outros. Somos, muitas vezes, indulgentes com nossas falhas e rigorosos com as alheias. O que em nós encontra justificativa, no outro se transforma em condenação.

A régua permanece a mesma. O que muda é a consciência de quem a segura. E, quando alteramos a medida conforme a conveniência, já não estamos praticando a justiça, mas protegendo nossos próprios interesses sob a aparência da retidão.

Na política, esse disfarce tem nomes bonitos: estratégia, pragmatismo, defesa dos interesses nacionais. Mas quando a medida muda sempre a favor de quem mede, merece outro nome. Conveniência.

O bolsonarismo oferece alguns exemplos. Vamos olhá-los com calma, como quem examina uma pedra bruta: sem raiva, mas sem fingir que ela é lisa.

A pátria que só vale para alguns

Durante anos, a Venezuela foi apresentada como o futuro que o Brasil deveria evitar. Não era só crítica a um governo ou a uma economia. Era um espantalho: quem pensasse diferente poderia nos levar àquele desastre.

Depois, quando os Estados Unidos intervieram na Venezuela e a soberania de um país entrou em debate, apareceu a pergunta incômoda: como defender a pátria com tanto fervor e aceitar, com tanta calma, que outro país seja dobrado pela vontade de uma potência?

A soberania parece pesar diferente conforme quem a ameaça. Se o adversário é inimigo ideológico, ela é sagrada. Se a pressão vem de um governo admirado, ela vira assunto de negociação.

Talvez aqui esteja o ponto central.

Soberania que só vale para os países de que gostamos não é princípio. É preferência.

Isso não quer dizer que todo governo estrangeiro esteja acima de crítica, nem que a soberania sirva de escudo para abusos. É possível condenar um governo e, ao mesmo tempo, defender o direito do seu povo de decidir o próprio destino. O erro começa quando confundimos rejeitar um governante com autorizar que outro decida por uma nação inteira.

O inimigo que muda de nome

O mesmo acontece com a palavra "comunista".

No discurso bolsonarista, ela deixou de ter sentido preciso. Virou etiqueta. Cabem nela socialistas, social-democratas, defensores de políticas sociais, críticos do conservadorismo e até liberais que discordem de algum ponto. Todos viram um só.

Há uma função nisso. Quando o outro deixa de ser alguém com ideias e passa a ser uma ameaça absoluta, ninguém precisa mais ouvir, entender ou reconhecer qualquer mérito.

O rótulo substitui o pensamento.

Mas a régua encolhe quando o dinheiro entra na sala. A China é governada por um Partido Comunista e tem partido único. Ainda assim, é parceira comercial indispensável do Brasil. E está certo comerciar com ela: nenhum país responsável deve transformar diferença ideológica em muro.

A contradição não está em negociar. Está em usar rigor total com o adversário de dentro de casa e flexibilidade total com o parceiro que paga bem do lado de fora.

Então vêm duas perguntas.

Se o comunismo é, por definição, uma ameaça à liberdade, por que essa ameaça some do discurso quando há mercado, investimento e negócio?

E se é possível reconhecer que um país não se resume ao rótulo do seu regime, por que negar essa mesma complexidade aos nossos vizinhos de pensamento?

Talvez a contradição mais reveladora não seja negociar com quem pensa diferente. Seja não admitir que essa mesma abertura deveria valer dentro da nossa própria casa.

A urna que só presta quando ganhamos

Com as urnas eletrônicas se repete o padrão.

Quando o resultado é ruim, vêm as suspeitas e os ataques à confiança no processo. Quando o resultado é bom para o mesmo campo político, a dúvida desaparece e ninguém mais fala em fraude.

É preciso separar duas coisas. Questionar com provas, pelos caminhos legais, é parte da democracia. Duvidar de todo o processo sem evidências, só porque o resultado desagradou, corrói as colunas do templo.

Urna não fica confiável porque elegeu o nosso candidato. Nem fica fraudada porque elegeu o adversário. Ela vale pelos controles, pela fiscalização e pelas provas.

Aceitar a democracia é aceitar que o povo pode escolher quem não escolheríamos. Quem só reconhece a vontade do povo quando ela concorda com ele não defende a soberania popular. Defende uma versão podada dela.

A liberdade para os nossos, a suspeita para os outros

Há ainda a liberdade.

Exalta-se a liberdade de expressão, mas chama-se de perseguição qualquer crítica aos próprios líderes. Defende-se a liberdade econômica, mas aceitam-se pressões que ferem a autonomia do país. Denuncia-se o autoritarismo de adversários e relativiza-se o dos aliados.

Nada disso significa que todo bolsonarista pense igual. Nem que cada eleitor carregue as contradições dos seus dirigentes. Falamos de um padrão: princípios que deixam de ser limite para o próprio grupo e viram exigência só para os outros.

A liberdade que só protege os nossos não é liberdade.
A justiça que só cobra dos adversários não é justiça.

O patriotismo que aceita perder autonomia por afinidade de ideias contradiz o que diz defender.

E o perigo cresce quando o grupo deixa de enxergar isso. Toda crítica vira perseguição. Toda prova contrária vira conspiração. Toda mudança de posição vira estratégia genial.

Aí a ideologia já não serve para entender a realidade. Serve para evitar o desconforto de olhar para ela.

Mudar não é o problema

Todos nós nos contradizemos. Mudamos de opinião, revemos conceitos, descobrimos que certas certezas eram de barro. Isso não é defeito. Quem muda porque aprendeu cresce.

A diferença está na maneira.

Quem muda por ter compreendido o erro aprende. Quem muda o critério conforme a vantagem e continua jurando que nunca mudou perde algo mais fundo.

Não é a mudança que compromete a integridade. É a recusa em admitir o que a motivou.

Por isso a crítica não pode virar aquilo que condena. Seria contraditório denunciar a intolerância de um grupo e negar aos seus integrantes o direito de pensar, de mudar de ideia e de participar da vida democrática. Milhões de pessoas não cabem numa categoria moral única.

Atacamos ideias, discursos e decisões. Não rebaixamos pessoas.

O espelho do Templo

Quem entra na Loja pela primeira vez passa antes pela Câmara de Reflexões. Ali não há plateia. Só um espelho invisível e perguntas que ninguém mais pode responder por nós.

Talvez a política precise dessa câmara.

Porque o mecanismo que descrevemos não pertence a um partido só. Pode morar em qualquer corrente, de qualquer lado, em qualquer um de nós. Sempre que justificamos nos aliados o que condenamos nos adversários. Sempre que só aceitamos como verdade o que confirma o que já pensamos. Sempre que confundimos lealdade a um líder com fidelidade à pátria.

Nesses momentos deixamos de examinar o poder. E começamos a servi-lo.

O Brasil não precisa escolher entre se curvar a uma potência e brigar com todas. Não precisa romper com a China para provar coerência, nem aceitar qualquer resultado eleitoral sem fiscalização. Precisa de critérios que não mudem conforme o interesse, de instituições que não dependam da simpatia de um partido e de cidadãos capazes de separar convicção de conveniência.

Uma convicção verdadeira não precisa ser imutável. Precisa saber explicar por que mudou.

E aqui, talvez, os dois lados deixem de ser inimigos. Firmeza e abertura não se anulam. São o esquadro e o compasso do mesmo obreiro: um para ser reto, o outro para ser largo.

A régua, de novo

Voltemos à régua de vinte e quatro polegadas.

Se a soberania é valor, vale também para quem pensa diferente.
Se a democracia é princípio, vale também quando perdemos.
Se a liberdade é direito, não depende de quem a exerce.

Se o comunismo é criticado por suas características, essa crítica precisa resistir ao encontro com o interesse.

A pergunta que fica é simples. E incômoda.

Defendemos aquilo em que acreditamos? Ou acreditamos naquilo que nos convém defender?

O problema não está em mudar de opinião, pois amadurecer também é reconhecer que estávamos enganados. O perigo começa quando abandonamos nossos princípios para preservar nossas certezas e ainda encontramos justificativas para não reconhecer a contradição.

Há uma submissão que não exige ordens nem correntes: basta que entreguemos a alguém o direito de pensar por nós. Aos poucos, passamos a repetir suas palavras, adotar seus julgamentos e chamar de verdade aquilo que apenas aprendemos a aceitar.

E não precisamos procurar esse fenômeno somente no mundo exterior. Ele também nos habita, silencioso, esperando a ocasião em que nossas convicções serão postas à prova.

Afinal, de pouco vale segurar a régua da justiça para medir os outros se não tivermos a coragem de colocá-la diante de nós mesmos. A medida que exigimos do mundo precisa ser, antes de tudo, uma medida que nossa própria consciência seja capaz de sustentar.

 

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