A Política na Polis
A Inutilidade de Apagar uma Fogueira Assoprando as Cinzas
Por Hiran de Melo
Há
pessoas que passam pela nossa vida como quem carrega uma caixa de fósforos.
Não
precisam de grandes razões para acender uma fogueira. Basta uma palavra
atravessada, uma insinuação, uma injustiça, uma provocação cuidadosamente
colocadas no lugar certo. Elas sabem, muitas vezes, que determinadas palavras
ferem. E justamente por isso as pronunciam.
O
curioso é que, diante de uma provocação, quase sempre acreditamos que
precisamos responder.
É
como se o outro colocasse fogo em uma pequena pilha de lenha e nós, indignados,
corrêssemos para apagar as chamas assoprando as cinzas.
Só
que assoprar cinzas não apaga fogueira.
Pode
até acontecer o contrário.
O
sopro espalha as brasas.
Uma
palavra chama outra. Uma ofensa produz uma resposta. A resposta exige uma
explicação. A explicação vem carregada de indignação. A indignação procura
testemunhas. As testemunhas escolhem lados. E, quando percebemos, aquilo que
começou como uma pequena faísca já se transformou em um incêndio que ninguém
mais sabe quem começou.
Talvez
uma das maiores maturidades que podemos alcançar seja descobrir que nem todo
fogo merece a nossa água.
Há
incêndios que desaparecem quando deixam de receber oxigênio.
O
provocador precisa da nossa reação para continuar provocando. Ele precisa
perceber que encontrou um ponto vulnerável. Precisa sentir que suas palavras
produziram movimento dentro de nós.
Quando
reagimos impulsivamente, entregamos ao outro uma espécie de chave.
Ele
passa a conhecer a porta por onde consegue entrar.
Por
isso, às vezes, permanecer sereno não é covardia.
É
proteção.
E
silêncio não significa necessariamente ausência de resposta.
Há
silêncios que são respostas completas.
O
gelo, diante do fogo, não precisa discutir com ele.
O
fogo pode ameaçá-lo, cercá-lo, insistir. O gelo não precisa devolver fogo ao
fogo. Ele permanece sendo aquilo que é. E, paradoxalmente, aquilo que parece
sua fragilidade transforma-se naquilo que extingue a agressão.
O
gelo derrete.
Mas
aquilo que parece derrota pode ser justamente a transformação que encerra o
conflito.
A
água nasce daquilo que foi atacado e retorna sobre aquilo que atacou.
Existe
nisso uma profunda lição sobre a vida.
Nem
sempre precisamos vencer quem nos agride.
Às
vezes, basta não permitir que a agressão nos transforme naquilo que combatemos.
Porque
existe uma derrota muito maior do que perder uma discussão: perder a si mesmo tentando provar ao outro que ele está
errado.
Quantas
vezes entramos em guerras que não desejávamos simplesmente porque alguém
conseguiu nos convencer de que precisávamos lutar?
Quantas
vezes uma pessoa disse alguma coisa sobre nós e passamos horas, dias ou até
anos tentando reconstruir nossa imagem diante de quem sequer estava interessado
em conhecê-la?
Há
uma armadilha nisso.
Quando
vivemos preocupados em responder a tudo o que dizem a nosso respeito, deixamos
de viver a nossa própria vida para administrar a narrativa dos outros.
E
ninguém consegue construir uma existência inteira tentando apagar as versões
que os outros inventaram sobre si.
A
integridade possui outra lógica.
Ela
não precisa correr atrás de cada acusação.
Ela
continua caminhando.
Porque,
no tempo, aquilo que somos tende a falar mais alto do que aquilo que disseram
sobre nós.
É
nesse sentido que a antiga sabedoria bíblica permanece tão atual: “A justiça
do íntegro endireita o seu caminho, mas o ímpio cai pela sua própria maldade.”
Não
se trata de esperar passivamente que o mal seja punido.
Trata-se
de compreender que determinadas atitudes carregam dentro de si as sementes das
próprias consequências.
Quem
constrói relações sobre a mentira precisa continuar mentindo para sustentar a
primeira mentira.
Quem
alimenta conflitos precisa produzir continuamente novos inimigos.
Quem
vive da provocação precisa encontrar permanentemente alguém disposto a ser
provocado.
Mas
quando deixamos de alimentar o mecanismo, alguma coisa se rompe.
O
fogo começa a consumir a si próprio.
Talvez
seja por isso que algumas batalhas sejam vencidas não quando respondemos
melhor, mas quando simplesmente recusamos a convocação para a guerra.
Isso
não significa aceitar injustiças.
Não
significa confundir serenidade com omissão.
Há
momentos em que precisamos falar. Há situações que exigem limite. Há injustiças
diante das quais o silêncio seria cumplicidade.
Mas
existe uma diferença enorme entre defender-se e vingar-se.
Defender-se
preserva a dignidade.
Vingar-se
frequentemente entrega nossa dignidade ao agressor.
Quem
nos feriu passa, então, a determinar nossas palavras, nossos sentimentos,
nossas decisões e até a pessoa que nos tornaremos.
E
talvez essa seja a vitória mais completa daquele que nos atacou: não quando nos
machuca, mas quando consegue nos transformar em alguém que não gostaríamos de
ser.
Por
isso, algumas vezes, a melhor resposta não está na boca.
Está
na permanência.
Continue
sendo justo quando esperam que você seja cruel.
Continue
sendo honesto quando esperam que você minta.
Continue
sendo sereno quando desejam vê-lo desesperado.
Continue
caminhando quando tentam convencê-lo de que você precisa parar para responder.
Não
porque o outro mereça sua bondade.
Mas
porque você merece não perder sua natureza por
causa da natureza de alguém.
Há
pessoas que jogam brasas esperando que você as segure.
Não
as segure.
Há
pessoas que acendem fogueiras esperando que você sopre as cinzas.
Não
assopre.
Há
pessoas que provocam porque precisam desesperadamente encontrar dentro de você
uma reação que justifique aquilo que já decidiram pensar sobre você.
Não
lhes dê esse presente.
Deixe
que a fogueira consuma o próprio combustível.
E
siga.
Porque
a vida possui uma estranha forma de devolver às pessoas aquilo que elas
espalham.
Nem
sempre no nosso tempo.
Nem
sempre da maneira que imaginamos.
Mas
existe uma justiça silenciosa no modo como determinadas escolhas acabam
revelando quem as fez.
No
fim, talvez a verdadeira sabedoria não esteja em aprender a apagar todos os
incêndios.
Talvez
esteja em aprender a reconhecer quais fogueiras
não devemos alimentar.
Algumas
se apagam sozinhas.
Outras
desaparecem quando o vento muda.
E
algumas só continuam acesas porque alguém, do lado de fora, permanece
assoprando as cinzas.
Por
isso, diante da provocação, talvez valha perguntar:
Estou tentando apagar um incêndio ou estou apenas espalhando
suas brasas?
Porque
há momentos em que a maior demonstração de força não é responder.
É
permanecer inteiro.
E
deixar que o fogo, privado do nosso sopro, descubra sozinho que não existe
incêndio eterno.

Comentários
Postar um comentário