Religião e Existencialismo
 

A Eternidade e o Instante

O presente é o lugar onde o tempo toca o eterno.

Por Hiran de Melo

Há um rio que corre diante de quem se detém.

A água que passou já se foi. A que virá ainda não chegou. A única que a mão pode tocar é esta, que escorre agora entre os dedos.

Ninguém precisa ser ensinado a isso diante de um rio. E, no entanto, quase ninguém o aprende diante da própria vida.

Existe uma estratégia para afastar o ser humano de Deus que não exige pecado algum. Não pede escândalo, nem grandes quedas. Pede apenas que a pessoa saia de um lugar.

Foi o que Lewis imaginou ao dar voz a um velho tentador que escreve ao sobrinho aprendiz: o mais eficaz nem sempre é empurrar o homem para o mal. Basta tirá-lo do agora.

Lido do avesso, o conselho do tentador se transforma em mapa. Ele revela, sem querer, onde Deus nos espera.

Fomos feitos para a eternidade, mas vivemos no tempo. E só há um ponto onde as duas margens se tocam.

O agora.

O lugar onde o tempo roça o eterno

Se Deus é eterno, e se o instante é onde o tempo encosta na eternidade, então o presente é o lugar onde o ser humano mais se aproxima do divino. Não por esforço místico. Apenas por estar. Inteiro. Desperto.

Um abraço pode ser lembrado. Pode ser desejado. Mas para abraçar, é preciso estar aqui. Podemos nos arrepender do que dissemos ontem e prometer que amanhã será diferente, mas só dizemos me perdoe agora.

Por isso retirar alguém do presente é retirá-lo do lugar do encontro.

As margens que nos roubam o rio

Uma das margens é o que já foi. O corpo está à mesa, mas a alma regressa às ofensas de ontem, ensaia brigas que nunca acontecerão, discute com fantasmas. Vivemos de lembranças e de imaginações, e chamamos a isso pensar.

A outra é o que ainda não veio. "Quando eu me aposentar, aí sim eu vou viver." "Quando tudo se acalmar, aí sim eu vou olhar para a minha família."

E o rio segue.

Os filhos crescem.
Os amigos envelhecem.
Os pais deixam de estar conosco.
Os afetos mudam de forma.

Esperávamos o momento certo para viver, e o momento certo era o que estava passando.

Não se trata de abandonar os projetos. Planejar o amanhã é tarefa de hoje. O passado também tem sua dignidade: é dele que vêm as raízes e as lições. O problema começa quando a memória vira prisão e o horizonte vira esconderijo.

Pensar no futuro não é o erro. O erro é morar nele.

O que só mora no presente

Talvez o presente seja a única casa onde habitam três dons.

O dever, que é a consciência obedecida no instante exato em que se age. A graça, que quase nunca chega como espetáculo, mas como pão repartido, palavra amiga, silêncio que acolhe, alguém que permanece ao nosso lado mesmo conhecendo nossas imperfeições. E a gratidão, que nasce quando deixamos de contar o que nos falta e começamos a enxergar o que já nos foi dado.

Quem vive fora do agora deixa escapar os três. E nem percebe.

Há ainda um fio mais fundo. A gratidão tem os olhos no passado, o amor no presente. O medo, a avareza e a ambição olham para o futuro.

Cada vez que dizemos "quando eu tiver aquilo, aí sim serei feliz", entregamos o leme da alma ao desejo de possuir, conquistar ou evitar. E quem é governado pelo que ainda não existe se rende com facilidade a qualquer voz que lhe prometa o amanhã.

Isso não é negar a dor nem chamar de bênção tudo o que fere. É descobrir que, mesmo no meio da ferida, resta um espaço onde ainda podemos escolher como responder.

É nesse espaço que a vida deixa de ser sucessão de acontecimentos e se torna experiência de sentido.

A eternidade que não cabe no relógio

Se a eternidade for apenas duração interminável, ela começará depois da morte. Mas talvez seja também uma qualidade de existência.

Um gesto de amor dura segundos e permanece por décadas. Um perdão encerra anos de hostilidade. Um encontro muda o rumo de uma vida.

O relógio mede a duração disso tudo. Mas não alcança o que significa.

Não afirmo que se possa explicar Deus, nem reduzir a eternidade a uma experiência da alma. A pergunta é outra: se o divino transcende o tempo, por que procurá-lo só num futuro distante, como se estivesse ausente da hora que agora habitamos?

A fé que só espera pode deixar de ver. A esperança que sempre adia pode nos impedir de agradecer. E a promessa de uma vida futura, quando usada para desprezar a vida presente, afasta-nos justamente daquilo que pretendia anunciar.

O amor, que só sabe ser presente

O amor não vive de lembrança, nem de promessa. Vive de presença.

Amar alguém não é guardá-lo para a nossa felicidade futura. É acolhê-lo no tempo que compartilhamos. O amor adiado vira intenção. A bondade reservada para uma ocasião especial talvez nunca encontre ocasião melhor que esta.

De que vale falar de amor eterno, se não oferecemos presença a quem amamos?
De que vale esperar a paz prometida, se alimentamos a discórdia todos os dias?
De que vale desejar uma existência iluminada, se nas pequenas decisões recusamos a justiça e a compaixão?

Ficar no agora exige coragem. O passado, mesmo doloroso, é conhecido. O futuro, mesmo incerto, nos deixa inventar possibilidades. O presente nos põe diante do que somos.

Mas viver o agora não é esquecer quem fomos, nem renunciar ao que desejamos ser. É reunir memória e esperança no único ponto onde podem se tornar vida.

Não podemos refazer o ontem, mas podemos reparar hoje algumas de suas consequências. Não podemos dominar o amanhã, mas podemos preparar o terreno para recebê-lo. Não podemos deter o tempo, mas podemos decidir o que fazer com a parcela que ele nos concede.

O rio, outra vez

Por isso, a pergunta talvez não seja se acreditamos na vida eterna, mas o que fazemos com a vida que já chegou.

O passado já não nos pertence como possibilidade. O futuro ainda não se entregou às nossas mãos. O presente, porém, permanece diante de nós, trazendo o dever de viver, a liberdade de escolher e a oportunidade de amar.

É aqui que o sagrado pode ser reconhecido, sem precisar ser aprisionado em nossas certezas.

Você pode estar lendo isto com a cabeça em outro lugar. Em uma conversa que ficou mal resolvida. Em uma conta por pagar. Em uma felicidade marcada para depois.

Largue por um instante as duas margens.

Sinta a água que corre agora, entre as mãos.

A vida eterna não é um outro lugar. É este, quando o habitamos com consciência, amor e gratidão.

A eternidade não espera na outra margem. Passa por aqui, neste instante, e pergunta se estamos presentes.

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