A Política na Polis
A ABOLIÇÃO QUE AINDA NÃO TERMINOU
O escravismo estrutural e a pobreza como
herança de uma sociedade desigual
Por Hiran de Melo
A
escravidão brasileira não terminou inteiramente em 1888. Naquele ano, a lei
libertou os corpos, mas não desfez a estrutura social que, durante séculos,
aprendeu a transformar seres humanos em instrumentos de trabalho e a miséria em
vantagem econômica.
A
senzala perdeu suas correntes. A casa-grande, porém, permaneceu de pé.
Talvez
seja esse o sentido mais profundo do escravismo estrutural: não precisamos mais
possuir pessoas para continuar reproduzindo relações sociais que as mantêm
dependentes, mal remuneradas e afastadas das oportunidades que poderiam mudar
suas vidas. A antiga ordem sobrevive quando a desigualdade deixa de parecer uma
injustiça e passa a ser tratada como parte natural da existência.
A
abolição não distribuiu terras, não reparou os danos de gerações de trabalho
forçado, não garantiu moradia, educação ou condições dignas de sobrevivência
aos libertos. A liberdade chegou sem os meios necessários para exercê-la. E uma
liberdade sem condições materiais pode se tornar apenas outra forma de
dependência.
É
nesse terreno que a pobreza se perpetua. Não porque seja indispensável à
existência de uma sociedade, mas porque, numa sociedade profundamente desigual,
a abundância de uns pode conviver com a vulnerabilidade de muitos. Quando
alguém precisa aceitar qualquer salário para colocar comida na mesa, sua
liberdade de negociar é pequena. A necessidade transforma-se em instrumento de
poder nas mãos de quem pode esperar, escolher e pagar menos.
A
porta dos fundos continua aberta.
Por
ela entram as trabalhadoras domésticas, tantas vezes negras, que cuidam das
casas alheias enquanto lutam para sustentar as próprias. Durante décadas, seus
direitos foram tratados como se reconhecer sua condição de trabalhadoras fosse
uma concessão generosa, e não uma obrigação de justiça. Quando direitos básicos
finalmente avançam, há quem enxergue primeiro o custo para o empregador, antes
de reconhecer a dignidade devolvida a quem trabalha.
É
assim que uma herança histórica se disfarça de bom senso.
Também
os programas de transferência de renda enfrentam essa contradição. Quando o
Estado garante o mínimo para que uma família não passe fome, há quem chame isso
de esmola, como se a pobreza fosse uma falha moral de quem a sofre. Pouco se
pergunta sobre as condições que produziram aquela dependência, sobre as
oportunidades negadas e sobre a concentração de riqueza que permite a alguns
acumular muito enquanto outros mal conseguem sobreviver.
Isso
não significa que toda política de inclusão seja eficaz, nem que a
transferência de renda, isoladamente, seja capaz de superar a desigualdade.
Educação de qualidade, trabalho digno, produtividade, serviços públicos
eficientes e oportunidades reais também são indispensáveis. O problema começa
quando essas exigências são usadas não para aperfeiçoar as políticas sociais,
mas para negar aos pobres até mesmo o direito de viver com dignidade no
presente.
Não
se desmonta, em quatorze anos de governos federais presididos por
representantes do PT, uma estrutura construída ao longo de séculos. Governos
podem abrir caminhos, reduzir desigualdades e ampliar direitos, mas nenhum
deles, sozinho, transforma uma sociedade cuja história ensinou gerações a
confundir privilégio com mérito e pobreza com incapacidade.
Tampouco
se deve imaginar que a estrutura sobreviva apenas pela vontade consciente dos
mais ricos. Ela também se reproduz por hábitos, preconceitos, interesses e
valores que atravessam as classes sociais. Há pessoas pobres que defendem uma
ordem que as prejudica, porque aprenderam a desejar o lugar dos privilegiados,
em vez de questionar as condições que tornam esse privilégio possível.
Identificam-se com a riqueza que esperam alcançar, não com a realidade que
precisam enfrentar.
Talvez
ainda não tenham percebido que a casa-grande não lhes reservou um lugar à mesa.
Reservou-lhes a esperança de um dia chegar até ela.
O
desafio, portanto, não é apenas econômico ou político. É também de consciência.
Precisamos aprender a distinguir o esforço individual das condições desiguais
em que os esforços acontecem. O mérito existe, mas não explica sozinho quem
prospera, quem permanece na pobreza e quem herda as vantagens que outros jamais
tiveram a oportunidade de conquistar.
A
justiça social começa quando deixamos de perguntar apenas o que cada pessoa fez
para merecer sua condição e passamos a perguntar também quais condições a
sociedade lhe ofereceu para construir a própria vida.
A
Lei Áurea aboliu juridicamente a escravidão. Não aboliu suas consequências, nem
eliminou as relações de poder que encontraram outras maneiras de se reproduzir.
Por
isso, a pergunta que permanece não é somente quem está dentro ou fora da casa.
É quem construiu essa casa, quem continua sustentando seu funcionamento e quem
tem o direito de usufruir daquilo que todos ajudam a produzir.
Enquanto
a dignidade de alguém for considerada um custo excessivo, enquanto a fome for
tratada como responsabilidade exclusiva de quem tem fome e enquanto o direito
de viver melhor provocar mais indignação do que a própria desigualdade, a
abolição continuará sendo uma obra inacabada.
A
escravidão terminou na lei. A liberdade, porém, ainda precisa conquistar seu
lugar na vida.


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